Jeanne C.

No Digestivo Cultural

Novembro 14, 2008 · 9 Comentários

Esse é do Rafael Rodrigues. Saiu faz um tempo, mas só consegui colocar agora. Aos poucos vou subindo os textos de imprensa que estão faltando…

Terça-feira, 28/10/2008
Caio Fernando Abreu, um perfil

Rafael Rodrigues

Para quem não conhece Caio Fernando Abreu e sua literatura, ou até conhece, mas muito pouco, uma boa oportunidade para se tornar mais “íntimo” dele e de seus livros é o perfil Caio Fernando Abreu ― Inventário de um escritor irremediável (Seoman, 2008, 192 págs.), escrito pela jornalista Jeanne Callegari.

É verdade que melhor do que ler sobre um escritor é ler a sua obra. Mas não se pode ignorar o fato de que, às vezes, uma boa biografia, um bom perfil ou até mesmo uma boa resenha faz despertar em alguém o interesse de ler determinado autor. E é isso o que acontece durante a leitura deste perfil.

Somos apresentados a um escritor irremediável, como diz o subtítulo do livro. Certos hábitos de sua infância já denunciavam qual seria o provável destino do pequeno Caio. Ele preferia desenhar e escrever, em vez de jogar futebol. As brincadeiras com os amigos envolviam criatividade, invenção de situações e histórias. Ele gostava também de brincar de teatro de marionetes e ir ao cinema. Quando adulto, Caio foi jornalista, escritor e dramaturgo. Se tivesse tempo, seria também cineasta, de tão grande que é a “(…) importância do cinema em seus textos; [Caio] diz que, quando está escrevendo, sempre pensa: onde está a câmera agora? Ele pensa o texto de uma forma cinematográfica…”. Se dependesse de Caio, seu romance Onde andará Dulce Veiga? teria sido adaptado para o cinema pouco depois de publicado. Chegou a conversar com o cineasta Guilherme de Almeida Prado, com quem, anos antes, havia escrito um roteiro que não chegou a ser filmado. Roteiro, aliás, que levou o escritor gaúcho a escrever o romance, recentemente adaptado por Guilherme.

A presença da obra de Caio Fernando ― e dele próprio ― é também forte no teatro. Ele chegou até a atuar, além de ter escrito várias peças, todas reunidas no livro Teatro completo (no momento, esgotado).

Nascido no fim da década de quarenta na pequena cidade de Santiago de Boqueirão, no interior do Rio Grande do Sul, Caio Fernando Abreu ― ou simplesmente Caio F., como também é chamado ― desde garoto já dava indícios da personalidade que teria quando adulto: “já se podia perceber alguns comportamentos, ainda incipientes, talvez, mas que viriam a caracterizar o escritor ao longo de uma vida: o enfrentamento, a busca de uma identidade, a vivência de experiências como busca de um significado maior na vida”. Essa personalidade autêntica, que o fazia sempre dizer o que realmente pensava, por mais que isso machucasse alguém ou que prejudicasse sua carreira profissional, rendeu a Caio alguns episódios no mínimo curiosos, como quando discutiu, em cadeia nacional, com Rachel de Queiroz, quando esta foi a entrevistada do programa Roda Viva e Caio estava na bancada, fazendo perguntas.

Seu temperamento, muitas vezes intempestivo ― Caio não poupava sequer os amigos ― e por vezes introspectivo em excesso ― ele às vezes passava dois, três dias incomunicável, trancado no quarto ―, talvez fosse reflexo de sua alma atormentada. Seus livros eram bem recebidos e vendiam razoavelmente bem, ele trabalhou ou escreveu para os principais veículos de imprensa do Brasil, seus livros eram traduzidos e lançados no exterior ― o que lhe rendia viagens e convites para dar palestras ―, mas Caio sempre estava com as contas no limite e, apesar de ter êxito em sua carreira literária desde o início, sempre parecia lhe faltar algo.

Essa inquietude não permitiu que Caio fixasse residência em lugar algum. Morou em São Paulo, Campinas (com Hilda Hilst), Rio de Janeiro e algum tempo no exterior. Quase sempre dividindo a moradia com algum amigo, ou morando “de favor”, pois não tinha dinheiro para bancar um lugar somente seu. Foi a mesma inquietude que levou Caio a festas undergrounds; e seu comportamento alternativo, suas vivências e algumas de suas amizades o levaram às drogas. Seu espírito libertário ― ou libertino ― e por vezes inconseqüente, o levaram a tornar-se portador do vírus da AIDS, doença que o matou em 1996. Esses dados biográficos são narrados em meio a declarações de amigos, cartas e trechos de obras do autor, que parecem justificar determinadas atitudes de Caio, e assim somos também apresentados aos seus livros, suas temáticas e seu estilo. Mais que isso: os trechos das obras nos fazem chegar a um melhor entendimento de sua personalidade, coisa que às vezes os dados não permitem. É o caso de um trecho do primeiro romance de Caio, Limite branco: “Eu gostaria de ir embora para uma cidade qualquer, bem longe daqui, onde ninguém me conhecesse, onde não me tratassem com consideração apenas por eu ser ‘o filho de fulano’ ou ‘o neto de beltrano’. Onde eu pudesse experimentar por mim mesmo as minhas asas para descobrir, enfim, se elas são realmente fortes como imagino. E se não forem, mesmo que quebrassem no primeiro vôo, mesmo que após um certo tempo eu voltasse derrotado, ferido, humilhado ― mesmo assim restaria o consolo de ter descoberto que valho o que sou”.

Vencedor de dois prêmios Jabuti (em 1984 e em 1989, na categoria de contos com os livros Triângulo das águas e Os dragões não conhecem o paraíso, respectivamente; este último também esgotado, por enquanto), Caio F. é um dos poucos escritores que alcançaram a glória literária ainda em vida. Sua obra, que passou algum tempo sem ser repaginada, voltou a ser editada pela editora Agir ― que tem feito um belo trabalho, aliás. Uma pena Caio ter morrido tão precocemente, com apenas 47 anos. Mas certamente não foi em vão. Há muito o que aprender com ele.

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9 respostas Até agora ↓

  • Liliane Moreira // Novembro 16, 2008 às 12:03 am | Responder

    Oi, Jeanne. Acabei de comprar o inventário de um escritor irremediável e já não resisti pra vir te fazer um pedido. Sou totalmente louca pelo Caio e faço muita questão de derramar um pouco disso que tem dentro de mim por aí, espalhando entre todo mundo, como ele mesmo fala que aconteceu, quando escreveu ‘eles’. Muito bem, você cita o primeiro escrito do Caio, como uma história em quadrinhos que chama- se Lili Terremoto. Ah, Jeanne! Manda pra mim isso e me faz mais feliz do que eu já estou só de saber que ela existe ou existiu. Um beijo, obrigada desde já e se você puder, responde pro email que eu deixei aqui só pra eu ter alguma notícia, por gentileza.

  • Malu // Dezembro 3, 2008 às 9:04 pm | Responder

    Oi, Jeanne. Fazia tempo que não passava por aqui. Bom saber que tem tanta notícia sobre o livro por aí.
    Bjs.

  • AlE qUitEs // Janeiro 7, 2009 às 11:27 am | Responder

    Salve, salve!
    Eu ADORO os textos do Caio Fernando Abreu.
    Seu blog é delicioso. Parabéns!
    Beijos

  • Jeanne Callegari // Janeiro 19, 2009 às 2:58 pm | Responder

    Obrigada, Liliane, Malu, Ale. Fico deveras feliz com o contato. Desculpem a demora, estive meio fora de mim. Liliane, te escrevo!
    Abs,

  • Mariana Lima // Janeiro 26, 2009 às 10:50 pm | Responder

    Jeanne, confesso que senti medo quando fiquei sabendo da biografia. Achei o título maravilhoso, a capa também, mas sabe como é… quando a expectativa é grande dá medo da frustração. Caio é VIP na minha estante, um dos autores que AMO. E amo mesmo, porque o texto de Caio tem uma paixão inexplicável. Comecei a ler seu livro numa livraria, e ele está entre as minhas próximas compras. Adorei. Parabéns! Muito bem escrito, muito bom de ler!

  • Jeanne Callegari // Fevereiro 14, 2009 às 11:32 pm | Responder

    Mariana, obrigada. Me conta depois que você ler inteiro. Fico feliz que você tenha superado seu medo ;)
    Abs,

  • Mariana Lima // Março 18, 2009 às 12:29 am | Responder

    Jeanne, acabei de ler o inventário de um escritor irremediável (como já disse aí em cima, título maravilhoso!). O que tenho a dizer é: P-A-R-A-B-É-N-S! Li sem parar, com direito àquela sensação de felicidade onírica no final, de ter vivido ali entre os amigos do Caio, ter compartilhado dos seus desejos e frustrações. Como fã do escritor, na minha opinião você conseguiu capturar a essência do escritor, a urgência lírica, a sensibilidade dos textos Caio. Seu livro foi um grande presente para mim e tenho certeza que o Caio, esteja aonde estiver, está muito feliz com o resultado, fazendo piada e rindo de todas nós.

  • Jeanne Callegari // Março 29, 2009 às 1:57 am | Responder

    Puxa, Mariana, que alegria! :)
    Fico sempre feliz demais quando as pessoas gostam. É isso que importa, não é?
    Abração,

  • Ana Paula // Junho 13, 2009 às 6:44 pm | Responder

    Olá Jeanne…
    Gosto muito do Caio Fernando Abreu e tenho estudado a obra dele. Acompanho todas as referências que encontro, sejam elas vindas de amigos, conhecidos ou mesmo familiares. Logicamente, tomei conhecimento do seu livro. Comprei-o e o li em menos de dois dias. Por isso gostaria de realizar alguns comentários:
    1. Seu livro apresenta uma série de contradições, parece que você não o revisou antes de publicar. Há datas que se contradizem, além de referêncis falhas sobre as publicações.
    2. Suas tentativas de análises literárias são fraquíssimas, além de duvidosas e precárias. É visível a sua falta de referencial para realizar tal procedimento. Acredito que seria melhor evitar esse tipo de análise visto que você enfraquesse e minimiza o potencial dos textos do Caio, repetindo frases que são lugar comum e não acrescentam nada às obras.
    3. Quanto a apresentação biografica. Entendo que você quis dar um tom mais coloquial ao texto, entretanto tornou algumas passagens vulgares e condenou o escritor a uma marginalidade que não lhe competia.
    4. A tentativa de elaborar a biografia é válida. aconselho a pensar em uma reedição com correções, pois é óbvio que seu texto necessita de mudanças, pois você não chega a um consenso quanto às informações que apresenta. Um exemplo claro disso está na menção da obra Pequenas Epifanias na página 182, quando você diz que o Caio viu o outdoor de uma obra que nem havia sido publicada ainda.
    Por favor, revise seu texto…é uma ofensa para um escritor do porte do Caio ter uma biografia tão repleta de falhas e equívocos.

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