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Crítica/”Inventário de um Escritor…”
Biografia lembra quixotismo de Caio Fernando Abreu
NOEMI JAFFE
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA
A literatura e a vida estão cheias de histórias de pessoas desbundadas durante a juventude que, com a estabilidade profissional e supostamente emocional adquiridas com a idade, acabam por se tornar “caretas” ou, no mínimo, razoáveis. Caio Fernando Abreu não se enquadrava nesta categoria. Ao ser perguntado, por exemplo, no programa de Jô Soares, quando já se sabia portador do vírus da Aids e já era um escritor bastante reconhecido, se pensava em escrever um livro sobre a doença, Caio respondeu: “Vai que eu não morro! Com que cara eu vou ficar?” São histórias como essa que nos conta Jeanne Callegari, jornalista mineira, na biografia do autor, de nome “Inventário de um Escritor Irremediável”. Como alguém que não sabia nem desejava separar a literatura da vida, uma posição incômoda e muitas vezes constrangedora, a autora conta episódios relacionados aos vários amores de Caio (homo e heterossexuais), seus empregos, seus ídolos, sua constante falta de dinheiro, mesmo durante o sucesso. Clarice Lispector, uma de suas maiores paixões, o chamava corretamente de “Quixote”, ela que, como ele, também adorava o ovo e as galinhas. Caio era mesmo quixotesco por diferentes razões, algumas louváveis, outras um pouco mais complicadas para um escritor. Na fúria e na autenticidade com que misturava sua vida, suas loucuras e sua obra jornalística e literária, seu trabalho era mesmo quixotescamente admirável. Na iminência da eleição de Collor, por exemplo, o autor não hesitou em destruir nosso futuro presidente em sua crônica jornalística semanal. Pode-se também dizer que existe um pioneirismo na sua autoproclamação como “escritor pop”, para quem Cazuza e Rita Lee foram influências mais importantes do que Graciliano Ramos. Até aí, o Quixote único e louvável. O Quixote mais problemático aparece, entretanto, em uma certa indistinção, na linguagem literária, entre a linha que separa o óbvio (o que há de mais difícil na literatura) do autoral. Passagens como “é preciso abraçar a vida” ou “crave seus dentes na minha polpa maciaaaaahh” esbarram numa obviedade mais fácil, em que a mistura entre vida e literatura não contribui muito para esta última. A própria biografia também acaba pecando por esse mesmo problema, às vezes, como quando a autora fala de “finos pingos de chuva” ou “sempre construindo castelos em cima de nuvens”. Mas há que se perguntar se o lugar-comum não é, algumas vezes, o preço a ser pago pela coragem de fundir vida e literatura com tanta intensidade. Da literatura “pop” de Caio Fernando Abreu ainda sobra pano para muita manga.
CAIO FERNANDO ABREU: INVENTÁRIO DE UM ESCRITOR IRREMEDIÁVEL
Autora: Jeanne Callegari
Editora: Seoman
Quanto: R$ 28 (192 págs.)
Avaliação: bom


1 resposta Até agora ↓
João Batista Ferreira // Outubro 18, 2009 às 10:00 pm |
Olá, Jeanne, acabei de ler seu belo e emocionante livro sobre o Caio. O Caio que conheci está lá, retratado de modo sensível e cuidadoso. Difícil largar a leitura. Impossível não ficar tocado por seus sonhos, loucuras e imenso talento que ele tinha com a palavrae. Dá vontade de reler seus contos, reencontrar Dulce Veiga. Seu livro é uma linda homenagem! Parabéns!
Depois do nosso contato por e-mail, publiquei um livro no qual estão alguns dos contos trabalhados na oficina com o Caio. Saiu pela 7Letras: O doce vermelho das beterrabas. Incluí a apresentação que ele fez para os contos da antologia Paulistanos Desvairados, que ele organizou. Quero mandar um exemplar para você. abr. João Batista Ferreira