Jeanne C.

Entradas etiquetadas como ‘livros policiais’

4 1/2 policiais

Julho 15, 2008 · Deixe um comentário

humphrey bogart como marlowe em the big sleep. e a mocinha é a lauren bacall

humphrey bogart como marlowe em the big sleep. e a mocinha é a lauren bacall

Dando uma folga ao assunto do Caio. Nas férias, que terminaram domingo, aproveitei para ler. E decidi que ia ler só romances policiais. Depois de muita leitura de tendências e livros de trabalho, estava precisando lembrar o motivo pelo qual sempre gostei de ler: a fruição, o prazer, puro e simples. Funcionou. Eu me diverti e consegui desligar um pouco de todas as milhares de coisas que andam rondando a cabeça.

 

 

A interpretação do assassinato, Jed Rubenfeld: Um dos recentes. Mistura fatos reais, como a visita de Freud aos Estados Unidos, com ficção, o assassinato de uma mulher, que Freud ajuda a desvendar. A arquitetura do romance é precisa: tudo se encaixa, o suspense é grande, o final, surpreendente. Não entendo o suficiente de psicologia para saber se a teoria de Freud, principalmente o complexo de Édipo, não está um pouco simplificada, sem muitos subtextos. O autor parece simpatizar muito com Freud e pinta um Jung um tanto quanto estranho, místico, pervertido. Também me parece que os personagens são muito atuais; parece que agem mais conforme os costumes de hoje. Mas isso é bobagem. O que importa é a historinha que ele cria, a relação dos personagens, e essa é das boas. Seu “detetive”, na verdade um jovem terapeuta apaixonado pelas teorias de Freud, é carismático, embora não tanto quanto alguns ícones da história do policial. Em promoção, aqui.

O valete de espadas, Boris Akunin: Esse também é dos atuais. Escrito por um russo, se passa na Rússia, o que já o diferencia de muita coisa. Está num território mais leve, aqui, que os romances noir. Nada de mortes, coisas pesadas. Ao menos nesse volume (as aventuras do detetive Fandórin são uma série) temos um caso de um estelionatário incrivelmente talentoso, que consegue escapar das garras de Fandórin. Poucos autores conseguem criar vilões realmente interessantes, e o Valete de Espadas é um deles. Do tipo que ainda hoje, e em qualquer época, se vê na rua. Espero, apaixonante, mesmo. A gente quase não quer que ele seja pego. O detetive, Fandórin, tem carisma (apesar da gagueira ser um traço pouco interessante e destoante em sua personalidade), assim como seu assistente, Anissi, responsável por muitas risadas.

O sono eterno, Raymond Chandler: Então, fazia um tempo que eu não lia um Chandler. Quando comecei a leitura, me perguntei: por quê? Ele tem as metáforas e descrições mais exatas, a trama mais intrincada e sensacional. E, obviamente, ele tem Philip Marlowe. O sono eterno é o primeiro romance com Marlowe, que vinha sendo preparado em contos, com outros nomes. Ele é alto, é forte, é durão (ele faz com que a gente ressuscite essa expressão, “durão”). É absolutamente honesto. Desconfio um pouco de seu machismo, de sua homofobia. É um humanista, mais um (um dos primeiros?) na categoria humanistas durões (de novo). Chandler merece a fama que tem. É o noir em sua melhor forma.

A louca matança, Chester Himes: Himes não tem uma trama tão boa quanto a de Chandler. Seu livro se constrói com muitos diálogos e poucas surpresas. Seus detetives, Ed Caixão e Jones Coveiro, não têm metade do charme de um Marlowe ou mesmo de um Poirot, de um Sherlock. Mas ele te prende desde o começo com um retrato vivo do Harlem da época, com suas intrigas e relações humanas. O que ele tem de mais legal, porém, não é isso. São as imagens. A cena inicial, por exemplo. Um reverendo cai da janela de um apartamento onde acontece um velório e se salva por aterrisar dentro de uma cesta de pães. Minutos mais tarde, um homem é encontrado esfaqueado dentro dessa mesma cesta. Profundamente visual, surrealista. Entende o Harlem e a cultura negra da época como um universo à parte, com outros códigos. A julgar pela leitura, é isso mesmo que parece ter sido.

O conto do amor, Contardo Calligaris: a rigor, esse não é um giallo, um policial. Mas trata de uma investigação, levada a cabo pelo que parece ser o alterego do Contardo, o psicanalista Carlo Antonini. Por isso o 1/2 do título. Antes de morrer, o pai de carlo lhe disse que acreditava ser um reencarnação de um pintor renascentista, e anos depois o narrador vai investigar para ver o que ele queria dizer com isso. É bom, bem construído (talvez até demais, como já foi observado: tudo se encaixa perfeitamente demais, parece uma defesa da existência do Destino). Trazer os pintores e artistas da Renascença e transformá-los quase que em personagens é uma tacada boa. É um livro bonito, para ser lido rápido. Deve funcionar melhor para quem se interessa por psicologia, psicanálise, coisas da mente. Lido perto de A interpretação do assassinato, faz ainda mais sentido.

Categorias: Uncategorized
Etiquetado: ,